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I, II & III


I

Então já passava da meia-noite e uma coisa era certa: o sono não viria mais uma vez. Já tinha perdido as contas de quanto tempo eu estava alternando o dia pela noite, a noite pelo dia, os dias pelo nada que as horas não dormidas ou apenas projetadas me causavam: um nada. De um lado para o outro da cama, o lençol que vai saindo das beiradas, o desconforto da noite quente, do travesseiro fundo. Da cama para a porta, da porta a um destino: a cozinha. Quem sabe lá eu não encontro o afago de um alimento gelado, talvez insosso, que me espera na geladeira? Da porta para o espelho. Uma visão turva de quem sou na madrugada, um personagem à parte da realidade, um reflexo de quem poderia ter sido, mas não fui, a visão distorcida de quem espero ser até chegar à geladeira. Geladeira, palavra estranha. Gelo. Beira. Abismo.

Quantos passos serão necessários? Quais movimentos dispensarão esforços esses músculos um tanto atrofiados por falta de uma caminhada saudável ao acordar, músculos que trocaram o oxigênio urbano e poético de deixar qualquer mero fazedor de poemas encabulado por fedor de cigarro barato. Do oxigênio para o reflexo no espelho. Do espelho para o enclausuramento de uma outra dimensão.
Da porta para o espelho e dele me desfaço em algumas lágrimas ácidas da vodca barata que enfiei guéla abaixo antes de dormir. Esqueço de levar a garrafa para o lixo, mas quem se importa? Lágrimas de uma existência perdida em projeções de mim mesma, o que poderia ter feito? Qual o efeito? Colateral, com certeza. Bato com o dedo no reflexo a fim de tocar na ferida aberta, na esperança de alcançar o coração partido, de apertar a alma até pegar um pedaço de vida.
            Dou um passo.
            Dois.
            Mais alguns.
            Cheguei.
            A luz forte no fundo da geladeira conforta meu coração e me traz esperança. Luz no fim do túnel em pedaço de queijo quase azedo. Leite, que ironia do destino.
            O mundo é bom.



            II


Se não fosse o reflexo eu tentaria. Se não fosse o leite derramado eu insistiria. Da geladeira que nunca cheguei a abrir, do queijo que nunca comi, do leite azedo que nunca resolvi. Do reflexo que me prende e das crenças enraizadas. Mais uma noite e mais uma pausa em frente ao espelho, mais uma conferida no reflexo e mais uma analisada nas feridas. Decido que uma música cai bem. A vitrola na sala é uma boa companhia. Ensaio minha chegada até ela e então conto quantos passos me levarão ao destino.

Três ou mais.
Primeiro a geladeira.
Depois a vitrola.
Simon & Garfunkel funciona.
O leite, compro mais?
Espera, dá tempo de mais um cigarro.
Respiro. 
Não é possível. 
Espero. 
Observo. 
Me analiso mais uma vez. 
Estou estagnada.
Pontos; pausam.


 III

Eu sabia que esse dia chegaria. O dia em que o espelho me engoliria por inteira e usaria a insônia como desculpa sem álibi. Dos ossos apenas o resto. Das paranoias apenas o vestígio de uma breve sanidade. Do reflexo, o que ainda existe de consciência. Das lembranças, o que nunca foi. Das caminhadas matinais, a saúde na corda bamba.

Eu sabia que aquele queijo faria mal. A gente insiste em pequenos erros procurando grandes vitórias. Eu sabia que era uma escolha. Eu escolhi me refletir. O espelho vive por mim. É o que sou. Pequenos passos sem nunca sair do lugar, a cozinha que vai desmoronar. A geladeira que desistiu de funcionar.

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